Brenner e as voltas do mundo da bola

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O Morumbi recebia o São Paulo para mais uma estreia válida pelo Campeonato Brasileiro. O time, dirigido pelo técnico Diego Aguirre, entraria em campo naquela oportunidade com um time misto. Todavia, apesar de os interesses do Tricolor estarem voltados a rodar o elenco, a noite era especial para um jogador específico: o garoto Brenner. A joia de Cotia enfim entraria como titular de uma partida e ansiava estar pronto para justificar as expectativas criadas em torno de sua trajetória na base – o que justificaria a sua multa rescisória de 50 milhões de euros. O que era para ser um sonho, no entanto, alcançou requintes de enredo de tragédia. Em uma noite péssima, o menino fora substituído aos 10 minutos do segundo tempo e literalmente chorou no banco de reservas do time. A paciência parecia estar acabando com a promessa da base.

O futebol é um esporte por vezes ingrato. O limiar entre o ostracismo e a glória é deveras impreciso; poder-se-ia dizer, inclusive, ter características de uma loteria. Inúmeras jovens promessas, destaques absolutos nas categorias de baixo, sobem e não vingam. Outros simplesmente somem, alterando os rumos de sua vida – alguns até acabam por se afastar das quatro linhas e enveredam para outras profissões. Desacreditado por muitos, o garoto Brenner parecia se encaixar no ocaso perfil dos refugos sem rumo. Reserva do São Paulo, sem perspectivas, acabou sendo emprestado ao Fluminense, onde também não teve muitas oportunidades em sua passagem. Voltou em 2020 com as sombras de Pato e Pablo, contratados por milhões, e uma franca expectativa de ser novamente emprestado para ganhar rodagem.

O futebol, porém, é também surpreendente. E as voltas do mundo da bola criam místicas e dão oportunidade para excelentes reviravoltas. Brenner, um jogador de apenas 20 anos, soube aproveitar as oportunidades que surgiram, paulatinamente e no seu tempo. Reconquistou o carinho da torcida ao entrar no segundo período do embate ao marcar um belíssimo gol que sacramentou a vitória diante do rival Corinthians, em emocionante final de sonho. De lá para cá, assumiu a titularidade, desbancou seus concorrentes no ataque e segue firme como referência de área em um time inconstante, mas que confia em seu atacante com muitos recursos.

Não era para ser naquele dia contra o Paraná. Brenner, então com 18 anos, era jovem, imaturo, inseguro; o seu choro era um arquétipo de que seria preciso paciência para desabrochar o bom futebol que fora apresentado na base. Ele pulou etapas, subiu precipitadamente em um momento que claramente não estava lapidado e quase colocou a carreira em risco por conta da agonia imediatista em rapidamente corresponder. Hoje, um dos artilheiros do Brasil com muito menos jogos que a maioria dos rivais, Brenner encanta a torcida e os que acompanham o futebol com gols de um grande oportunista, feitos de todos os jeitos prováveis – cabeçadas, voleio, chute sem-pulo, bolas empurradas embaixo da linha, enfim, em uma gama de formas. De todas as variantes do futebol, uma máxima é certa: o tempo é rei. E felizmente, para Brenner, o Deus Cronos foi um grande aliado.


Matheus Conceição dos Santos. Formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia em 2012. Resido em Salvador desde que nasci. Advogado, amante da língua portuguesa e torcedor apaixonado pelo São Paulo Futebol Clube. Escrever sobre o Tricolor é o que mais curto na vida. Instagram: @tevez_matheus

*A opinião do colunista não reflete a opinião do site

Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net

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