Carrinhos e Firulas – A Revolução dos Bichos no São Paulo

A coluna Carrinhos e firulas é escrita pelo Victor Oliveira e sempre será publicada às sextas, contendo muitas análises sobre o Tricolor!

Em outubro de 2015, o então presidente do São Paulo, Carlos Miguel Aidar, renunciava ao cargo após denúncias envolvê-lo em corrupção dentro do clube, inclusive com uma gravação de conversa entre Aidar e o então vice-presidente Ataíde Gil Guerreiro, na qual o ex-presidente admitia condutas indecorosas. Leco, o atual presidente, assumia seu lugar, prometendo levar o São Paulo de volta ao caminho das vitórias.

Tal qual os animais do romance de George Orwell expulsaram o senhor Jones da fazenda, para que os porcos passassem a dirigi-la, o São Paulo trocou Aidar por Leco.

A característica marcante da gestão Leco é seu caráter errático. Quando assumiu o cargo, o maior desafio era colocar as contas do clube em ordem. Entretanto, dada a seca de títulos recente e o histórico ruim contra os rivais, Leco também queria montar times fortes para disputar títulos. Na prática, o ajuste fiscal se sobrepunha ao aspecto técnico do futebol e o time profissional sangrava para que as contas do clube fossem saneadas. Foram várias idas e vindas de jogadores, times desmontados na metade do campeonato e inúmeras trocas de treinador.

Como já abordado em outros textos desta coluna, o São Paulo não possui um padrão de jogo definido para seu time profissional e categorias de base. Oscila entre técnicos ofensivos e defensivos, que adaptam os esquemas às características dos jogadores, que por sua vez são negociados pela diretoria quando há boa chance de negócio, e assim o time perde qualidade e padrão, maus resultados se sucedem e uma nova troca de técnico acontece.

Não há continuidade nos trabalhos executados. Ano após ano, o início de temporada é sempre um recomeço, uma nova esperança, geralmente com um novo técnico ou com algum que tenha assumido perto do fim na temporada anterior. Pacotões de reforços são anunciados. Como na fazenda descrita por Orwell, Leco também gosta de se cercar de cavalos Sansão, seja no time, no comando técnico ou na diretoria. Durante o mandato, trouxe ao tricolor os ídolos Lugano, Rogério Ceni, Raí, Hernanes, entre outros. São bons escudos para Leco, quando não, salvadores da pátria, como foi o profeta ao livrar o São Paulo de um vexatório rebaixamento no Brasileirão de 2017.

Segundo análise do Banco Itaú BBA sobre as finanças dos clubes brasileiros, o jeito Leco de administrar torna a arrecadação tricolor muito dependente da venda de atletas, além de aumentar os custos com o departamento de futebol, pois os jogadores jovens são repostos com atletas mais experientes, que ganham salário mais alto. Mesmo com a redução na dívida total, o time precisa vender jogadores para segurar o caixa e gasta muito com as novas contratações.

Desta forma, a gestão Leco beira o desastre, tanto tecnicamente como financeiramente, justamente por tentar fazer tudo ao mesmo tempo: arrumar as contas e montar times fortes. O que acontece na prática é um enxuga-gelo.

Parecia que as coisas mudariam em 2019. A diretoria de futebol, respaldada por Leco, decidiu bancar o técnico André Jardine, multicampeão na base tricolor, para dirigir o time profissional na temporada. Parecia o início do que seria, finalmente, um projeto de longo-prazo para o futebol do São Paulo, com integração ainda maior da base com elenco profissional e a implantação de um padrão de jogo universal no São Paulo. Na prática, porém, as coisas funcionam diferente. O time profissional não teve bom desempenho nas primeiras rodadas do Campeonato Paulista e ainda perdeu o jogo de ida, no mata-mata decisivo da Libertadores, por 2×0 contra o Talleres. A pressão de torcida e críticas da imprensa em cima de Jardine são enormes. Há quem defenda a saída do técnico antes da partida de volta contra os argentinos no Morumbi.

Duas alternativas para o que acontece nesse domingo: ou há um descompasso entre o que pensa a diretoria e aquilo que a torcida deseja ou, assim como a torcida, a Diretoria apostava que o time estaria voando logo no começo da temporada com Jardine. De uma forma ou outra, a falha é da Diretoria. Na primeira hipótese, ao não comunicar para a torcida o projeto de longo prazo com Jardine, com o ano de 2019 sem grandes expectativas de títulos. Ou, o que seria pior, a segunda hipótese, a Diretoria jamais deveria ter apostado em Jardine, mas sim num técnico medalhão, pragmático, que obtivesse bons resultados nesse início de temporada contra times mais fracos, jogando pro gasto. Lançar Jardine no elenco profissional com esse nível de expectativa e pressão é enterrar uma carreira promissora, além de acabar com qualquer hipótese de um novo pensamento no futebol tricolor.






O mais importante para o futuro do São Paulo não é o jogo de quarta-feira, mas sim o que virá após a partida. Uma classificação garante sobrevida ao técnico Jardine. Mas até quando? E jogando como? Já uma eliminação deve resultar na mudança do comando técnico, no mais tardar para depois do clássico contra o Corinthians, em Itaquera. E quem virá depois? De qualquer jeito, será bem provável voltarmos ao imediatismo ignorante e o estilo de jogo voltado para resultado sem sustentabilidade a longo prazo.

Cabe lembrar, que em 2011, o Corinthians foi eliminado na fase pré-Libertadores para o Tolima-COL. A pressão para que a diretoria alvinegra demitisse o técnico Tite foi enorme, porém o treinador foi mantido e logo depois abriu o maior ciclo vitorioso da história corintiana. A diretoria do clube, naquele momento, demonstrou convicção e firmeza. Será que a nossa vai agir da mesma forma ou vai admitir que não sabe o que está fazendo e retomar o ciclo infindável de troca de treinadores sem um projeto de futebol definitivo?

Para substituir Jardine, não há nome melhor e que mais se encaixa com a atual diretoria do que Vanderlei Luxemburgo. Decadente, sem brilho, porém mantendo a velha arrogância de sempre e se colocando acima dos demais. Os últimos trabalhos do técnico foram fracos, assim como as últimas temporadas do São Paulo. Luxemburgo e São Paulo parecem ter parado no tempo, no final da década de 2000.

Aliás, o treinador é sempre lembrado pela sua predileção pelo pôquer. Ao ler a notícia de que no voo para Argentina, fretado e pago pelo São Paulo,  o Presidente Leco levou a bordo 26 conselheiros, num verdadeiro voo da alegria, nos lembramos da cena final da “Revolução dos Bichos”, na qual os outros animais assistem aos porcos jogando cartas, bebendo, fumando, usando roupas humanas. E o narrador do livro arremata: “Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.”


Victor Oliveira. Tenho 26 anos, moro em São Carlos-SP. Sou Engenheiro de formação e trabalho como Analista Financeiro. Sou apaixonado pelo Tricolor desde pequeno, quando comecei a acompanhar os jogos pela TV. Neste espaço, farei análises fortes como carrinhos, carregando a sutileza de uma firula.

*A opinião do colunista não reflete a opinião do site

Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net

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