Espaço do Torcedor – É preciso paciência e tempo com Jardine

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Uma das principais características do futebol brasileiro dos tempos modernos é a efemeridade da ocupação dos cargos de treinadores dos clubes. Sempre pressionados pelo alcance de resultados, são eles que, invariavelmente, “pagam o pato” na maioria das vezes nas fases ruins das equipes. Exemplos não faltam, mesmo no tricolor paulista. E André Jardine, nesse início de jornada, terá que matar um leão por dia para provar que pode fazer o São Paulo gigante mais uma vez. E, acreditem: ele pode.

Profissão das mais injustas, a de “professor” – como costumeiramente são chamados os técnicos de futebol -, requer um controle emocional acima da média. No Brasil, então, nem se fala! Há uma cultura de resultados que torna o cargo dos mais instáveis possíveis, fazendo com que um campeão em um ano possa ser demitido logo em seguida pela perda de um clássico ou mesmo pela não conquista de outro título buscado.  

Em se tratando de São Paulo, houve um período em que ser treinador do clube era garantia de estabilidade. Agora, não mais. Se de 1990 a 1997 apenas três profissionais ficaram à beira do gramado do Morumbi como efetivos (Telê Santana, Parreira e Muricy), de 2010 a 2018 nada menos do que dezoito treinadores, alguns mais de uma vez, foram treinadores do time. Essa total rotatividade – que, não custa repetir, é característica do futebol nacional – demonstra o quão ingrata é a estadia de técnico em um clube dependente das vitórias, como é o São Paulo.

É preciso lembrar, pois, que, no intervalo correspondente aos últimos dez anos, o São Paulo conquistou apenas a Copa Sulamericana de 2012. Isso demonstra que alternar o cargo de treinador não é fator determinante para alterar o cenário de escassez de títulos do clube, haja vista a quantidade de profissionais gabaritados, nacionais e estrangeiros, que não conseguiram lograr êxito com o tricolor do Morumbi.

Chega a vez de André Jardine, que assume, pela terceira oportunidade, o cargo de treinador do São Paulo. Sim, em outros dois curtos períodos, em 2016 e ainda no começo de 2018, foi ele o treinador do time principal. E, diante desse caótico quadro de incertezas, ficam os questionamentos: é possível esperar algo de André Jardine? Ele será capaz de corresponder como treinador do time de cima? Obviamente, são perguntas imediatistas e sem nenhum propósito. Não há como prever o êxito de um treinador; apenas conceder a oportunidade de fazer o seu trabalho. Basta ver o caso de Felipão com o Palmeiras: os críticos mais abalizados já haviam encerrado sua carreira como treinador e deram como certo o fracasso na sua nova passagem. Veio o trabalho e, com ele, o título brasileiro.

André Jardine é multicampeão nas categorias de base. Dentre os principais títulos conquistados em sua jornada pelo tricolor, uma inédita Libertadores sub-20, um bicampeonato da Copa RS e outro bi da Copa do Brasil. Dentre suas virtudes, talvez a que mais chame a atenção seja a sua gana por conquistas e apreço pela grandeza do São Paulo, que podem ser vistas em suas preleções antes dos jogos. O que faz a necessidade de relembrar um outro treinador que passou pelo São Paulo: Telê Santana.

Apesar de poucos lembrarem, Telê teve curta e conturbada passagem pelo São Paulo em 1973. Chegou ao clube como salvador e saiu colecionando desavenças com jogadores (como exemplo, a briga com Paraná, por sua não-utilização recorrente). Saiu do clube, chegou à Seleção e ganhou a famigerada alcunha de “pé-frio”. E foi com essa “cruz” que chegou a sua segunda passagem no São Paulo, que vinha de um vice-campeonato brasileiro contra o Vasco e precisava se reafirmar como grande que era.

A imprensa o dava como ex-treinador em atividade após a sua saída do Palmeiras. E, tal qual Felipão, fulminou as dúvidas que pairavam, passando por um começo difícil e rodeado de críticas. Pegou o time em décimo quarto no Brasileirão, chegou à final e perdeu para o Corinthians. Permaneceu. No ano seguinte, iniciava-se um dos períodos mais vencedores da história de um clube brasileiro. E, diga-se de passagem, Telê teve olhos apurados e cuidadosos para a transição com as categorias de base do clube.

André Jardine chega ao posto conhecendo a fundo a estrutura, as dificuldades, o histórico jejum e, principalmente, a base do clube, que, hoje, perfaz-se no resquício único de gigante e temido São Paulo. Ganhou importantes reforços, como a volta do “profeta” Hernanes, um goleiro experiente e Pablo, jogador destaque e caro aos cofres do Morumbi. Tem a missão de acabar com a série péssima do clube nos últimos anos e, para tanto, precisa quebrar alguns estigmas: o último treinador, Diego Aguirre, apesar de campeão do turno do Brasileirão, foi demitido com menos de um ano de trabalho.

Será preciso paciência e hombridade para manter Jardine no posto. Sim, hombridade. Os dirigentes do São Paulo precisam saber bancar um treinador, mesmo diante de algum fracasso retumbante. É preciso coragem da diretoria e, principalmente, apoio da torcida. A história do clube já mostrou que é possível e a parcimônia com o então “pé-frio” Telê Santana tornou o São Paulo um clube mundial. Também o próprio André Jardine demonstrou, na base, que tem a fibra necessária para mesclar jovens e experientes atletas, como o Mestre, e conduzir o São Paulo ao seu posto de gigante brasileiro. Para isso, que os dirigentes e a torcida saibam com clareza: tempus dominus rationis est – o tempo é o senhor da razão. Apenas com tempo o jovem treinador poderá mostrar a que veio no tricolor e, só após isso, ser julgado por suas glórias e infortúnios.

Matheus Conceição






*A opinião do colunista não reflete a opinião do site

Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net

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