Memórias de um Tricolor – Quando me conheci por gente

Memórias de um Tricolor é a coluna do Thiago Francisco, sempre publicada às quartas-feira. Muitas memórias passarão por este espaço!

Não é incomum uma pessoa quando indagada sobre desde quando faz alguma coisa ou tem alguma mania, ela responder “desde quando me conheço por gente”. Eu não sou diferente, sou são-paulino desde quando me conheço por gente, mas você leitor sabe desde quando se conhece por gente? Sabe qual a primeira lembrança como ser humano pensante? Digo isso, pois temos flashes de nossa infância, mas até então a gente é tipo um labrador só perturbando, correndo e fazendo coisas que qualquer outra espécie também faz, a pergunta é: você tem ideia da primeira vez na sua vida que se sentiu humano? Pois eu sei exatamente a minha.






Foi em um domingo, 16 de dezembro de 1990, depois de um bate rebate dentro da área, em um lance que até hoje, quase três décadas depois eu ainda não entendi direito, o jogador deles entrou em um carrinho inimaginável dentro da área, aquele lance me fez entender o que era o mundo, me fez entender que não adianta chorar, você não terá tudo o que quer, existem coisas que estão fora do alcance do seu pai e da sua mãe, eu senti aquilo e percebi naquele momento que nada poderia ser pior.

Mas graças a um calendário maluco da nossa CBF (mais um), o Brasileirão de 1991 foi no primeiro semestre. Eu exalava ódio aquele ano, ódio por ter perdido o título e ódio que teria que começar a ir para a escola, e quem tem ódio quer vingança, porém eu não estava sozinho, com tanto ódio quanto eu estava ninguém menos do que Raí Souza Vieira de Oliveira, o maior camisa dez que eu vi jogar, o pessoal mais novo pode até vê-lo como um pacato diretor de futebol, mas acreditem, o cara tem sangue no olho e não aceita derrota.

O campeonato de 91 começa e o São Paulo passeia, tendo a melhor defesa da competição e dividindo a liderança com o surpreendente Bragantino de Carlos Alberto Parreira. Pegamos o Atlético-MG na semifinal e fizemos a decisão com o mesmo Bragantino, final justa, afinal foram as duas melhores campanhas do campeonato. Mas naquela final, no primeiro jogo a sorte finalmente nos encontrou, e dessa vez o bate rebate foi a nosso favor, Mário Tilico aproveitou o rebote e fez, festa no Morumbi 1 a 0 Tricolor, íamos para Bragança somente precisando empatar, se o Tricolor não sofresse gol seriamos campeões. Mas tomaríamos gol como? Nossa defesa era formada por Zetti, Ronaldão, Antônio Carlos Zago e Ricardo Rocha, o jogo poderia estar rolando até hoje que ainda estaria 0 a 0, ou seja, o título veio, o ódio passou, mas a sede de vingança continuava, Raí também sentia isso e o momento chegou.

Ainda estávamos em 1991, quase um ano depois no dia 08 de dezembro de 1991, também um domingo, porém dessa vez se bate rebate, deixando bem claro quem era o time que sabia jogar bola, naquele dia em diante, Raí mostrou que poderíamos contar com ele sempre que precisar. Foi no primeiro jogo, nosso ídolo tinha pressa e queria acabar com aquilo logo e quando esse cara quer alguma coisa, ele consegue. Ele foi lá, colocou a bola embaixo do braço e meteu “só” três gols no primeiro jogo da final. Nesse Paulistão ele fez gol de todo jeito imaginável, menos impedido, claro, afinal ele sabe o time que defende.

Daquele dia em diante valia a pena ser gente, eu era uma criança diferente na escola, não assistia TV Colosso e nunca tive super-herói preferido, não sei a diferença de Marvel ou DC, até porque o Raí é Tricolor e não pertence a essas franquias, agora se você leitor desavisado quiser questionar isso, me mostre 2 gols do Homem Aranha na final de algum Mundial…

Thiago Francisco

Thiago Francisco. Sou da Zona Leste de São Paulo e professor de história desde 2014, tenho 34 anos, frequento a arquibancada amarela do Morumbi, sempre atrás da bandeira do escanteio do lado da azul, não acredito em superstição, mas quando eu não tô lá naquele lugar sempre algo dá errado…

*A opinião do colunista não reflete a opinião do site

Foto: Arquivo Histórico do São Paulo FC

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