Não precisamos de Sebastião ou Steiner: precisamos de uma INTERVENÇÃO!

Espaço do Torcedor é a coluna quase que diária do Arquibancada Tricolor, que dá voz a todos os torcedores da arquibancada. Quer ver seu texto publicado aqui? Mande uma mensagem para nós!






A partir de 1580, com o desaparecimento do Rei D. Sebastião, criou-se, na mentalidade popular portuguesa da época, um sentimento ilusório de retorno do monarca ao seu posto. O Rei desaparecera na Batalha de Alcácer-Quibir, na África, sem haver vestígios de seu corpo após os portugueses sucumbirem na guerra diante dos mouros. A sucessão estava aberta e a boataria, com tons românticos, contaminava o espírito dos súditos à época, por acharem que haveria a volta de D. Sebastião, com salvação do reino diante da investida da Espanha de anexação e formação da União Ibérica. Foi o chamado “sebastianismo”.

No ano de 1945, com os russos cercando Berlim e já nas mediações do Führerbunker (abrigo antiaéreo usado para proteção do comando Nazista), Adolf Hitler propagava o devaneio de que o vitorioso militar Felix Steiner poderia conter o avanço inimigo. O mito era alardeado como a salvação que impediria o Reich de cair diante da invasão iminente, criando a utopia de que, sob o seu comando, suas tropas poderiam representar a esperança necessária para manter vivo um contra-ataque que, na cabeça do Führer, representaria a retomada da glória.

O Rei já havia desaparecido e não retornaria. Steiner, apesar de ser comandante genial em nas duas grandes guerras, não conseguiria conter o encontro das tropas que invadiam a Alemanha nos dois fronts, tendo em vista a desproporção absurda de contingente militar. Mas ambos despertaram paixões que entorpeceram as mentes desses dois povos, fazendo com que se criassem folclóricos pensamentos de vitórias impossíveis.

O São Paulo Futebol Clube, desde a malfadada reeleição para um terceiro mandato de Juvenal Juvêncio, com direito a manobras políticas e alteração do estatuto, vive o dilema de um clube que perdeu o status de referência. Igualando-se aos antigos rivais em seus passados sombrios, o Tricolor afundou em sua própria soberba e transformou um exemplo de gestão em calabouço do que de pior pode acontecer na administração de um time de futebol.

É o mesmo grupo de sempre no comando. E, para piorar, parece não haver oposição no clube, que espelha conformismo com os ditames de uma má-gerência que parasita o gigante do Morumbi.

Diante desse cenário escabroso, o que se pode fazer é justamente contemplar as racionalidades e afastar qualquer tipo de pensamento ilusório messiânico que vá salvar o clube. A realidade é que não há nenhum Steiner e nenhum Sebastião voltará; o São Paulo precisa, mais do que nunca, de sua torcida para extirpar os seus tiranos do poder e retomar a grandeza do clube. Não há Messias. Não há salvadores da pátria. O São Paulo é da torcida e ela precisa se movimentar para que o clube volte às suas mãos.

Um excelente exemplo se encontra no nordeste, mais precisamente em Salvador. Passando por décadas entregue às gestões temerárias, notadamente por uma conhecida família, o Esporte Clube Bahia, bicampeão nacional e tradicional clube brasileiro, passou por um necessário processo de intervenção. Foi promovida uma demanda judicial que culminou com a sentença de destituição do então presidente e de toda a sua diretoria. A manobra utilizada para desrespeitar o estatuto do clube e conduzir o mandatário à reeleição foi considerada ilegal e um interventor, Carlos Rátis, assumiu temporariamente a gestão do clube até que uma nova e democrática eleição fosse realizada.

O São Paulo precisa respirar novos ares e viver um novo período democrático. Estamos em novos tempos e o clube não pode ficar à mercê de interesses particulares em detrimento do bem coletivo. A torcida já não aguenta mais os desmandos e os protestos ocorridos parecem não surtir efeito, tendo a diretoria uma falida e sem nenhuma noção de autocrítica se eximindo de qualquer culpa dos constantes vexames. Diante desse quadro, mudanças de técnicos são apenas soluções imediatistas homeopáticas que escondem o real problema do clube: seus dirigentes.

O papel do torcedor, diante desse quadro, parece cristalino: é preciso se afastar de crenças infantis e messiânicas, com ações concretas e as atitudes juridicamente eficazes. O São Paulo é maior do que qualquer “cartola” e um movimento organizado encabeçado por intelectuais tricolores deve ser pensado o quanto antes, até mesmo para que um mal maior não venha a ocorrer, acabando com o que resta da estima do torcedor.

As redes sociais são armas fortes contra poderes tirânicos e, hoje, com a difusão da comunicação, há um nítido fortalecimento do poder popular de conjunção de forças. A torcida do São Paulo é gigante e pode liderar a mudança que o clube necessita. O são-paulino é o único Sebastião dessa história de três cores e o Steiner que o tricolor precisa é o de uma irremediável intervenção. Uni-vos, tricolores.


Matheus Conceição dos Santos. Formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia em 2012. Resido em Salvador desde que nasci. Advogado, amante da língua portuguesa e torcedor apaixonado pelo São Paulo Futebol Clube. Escrever sobre o Tricolor é o que mais curto na vida. Instagram: @tevez_matheus

*A opinião do colunista não reflete a opinião do site

Foto: Rummens

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