O despertar das cores gloriosas

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Apesar de um breve período de parceria com a Cirio, o São Paulo foi um dos poucos clubes que não entregou o controle de seu departamento de futebol para fundos de investimento ou multinacionais no breve período de extravagância financeira vivido pelo futebol brasileiro logo após a Lei Pelé entrar em vigor, em 1998. No curto prazo, o time ficou atrás de seus principais rivais locais, Corinthians e Palmeiras, além de outros endinheirados como Vasco e Cruzeiro, na disputa pelos principais títulos.

Porém, por diferentes razões, em 2002 já estavam terminados os contratos de parceria (em geral, previstos para durarem até o final da década seguinte) firmados por Flamengo, Vasco, Cruzeiro, Palmeiras, Corinthians e Grêmio. O legado desse período resultou em intermináveis ações trabalhistas movidas contra os clubes, além de dívidas que se acumularam exponencialmente. Graças, principalmente, à venda de jogadores como Denílson, Serginho e Edmílson, o São Paulo iniciava o século XXI estável financeiramente.

Além disso, outro resultado da Lei Pelé foi a modificação da relação contratual entre clubes e jogadores. Em linhas gerais, a antiga Lei do Passe contabilizava o passe de um jogador como um ativo para o seu clube. Dessa forma, mesmo que estivesse sem contrato vigente, um atleta somente poderia transferir-se mediante compensação financeira por seu passe. Provavelmente devido ao período de grande flutuação do Real em relação ao Dólar, era praxe que os contratos dos jogadores (em sua maioria, dolarizados) tivessem duração de um ano, apenas. A modificação dessa Lei faria com que os jogadores pudessem desvincular-se de seus clubes ao fim de seus contratos, sem necessidade de compensação financeira.

Para finalizar, o São Paulo foi estratégico ao priorizar o investimento em estrutura física. Ao mesmo tempo em que o Palmeiras se preparava para jogar a Série B de 2003, o São Paulo inauguraria o REFFIS – Núcleo de Reabilitação Esportiva, Fisioterápica e Fisiológica no mesmo ano. De dar inveja até ao Real Madrid, o local fazia parte do mais moderno centro de treinamento do Brasil. Para completar, em 2005, o clube investiu quase R$ 50 milhões para construir o CT de Cotia, focado em revelar os principais talentos do país.

Atento ao mercado, sem dificuldade em honrar com seus compromissos e oferecendo condições inigualáveis, o São Paulo era o sonho de qualquer jogador. Vivendo um incômodo jejum de títulos (de relevante, apenas dois Paulistas e um Rio-São Paulo entre 1993 e 2004), o time colecionava alguns fracassos recentes, como as eliminações no Brasileiro de 2002, quando liderou quase todo o torneio, e na Libertadores de 2004, frente ao Once Caldas. Com fama de amarelão, iniciava 2005 sob alguma desconfiança e sem a presença de ídolos recentes como Kaká e Luís Fabiano, negociados para a Europa por valores relativamente baixos.

O primeiro semestre foi perfeito, com título estadual e o tri da Libertadores. Do time que entrou em campo na final continental, com exceção de Lugano, todos vieram sem custos ou em final de contrato ao clube, incluindo atletas consagrados como Amoroso e Júnior. O mesmo aconteceu no Mundial de Clubes no fim do ano.

O auge do processo vitorioso veio com o tri campeonato brasileiro em 2006, 2007 e 2008. A fórmula era simples, garimpar o maior talento local possível disponível em fim de contrato, lançar jovens da base e ainda convencer clubes europeus a emprestarem jogadores renomados em tratamento de lesão no REFFIS, casos de Ricardo Oliveira e Adriano. Vender bem também era prioridade, e assim foi feito com Cicinho, Ilsinho, Grafite, Lugano e tantos outros.

O ano de 2009, porém, seria um ano chave para o São Paulo. A temporada iniciava com a repetição da fórmula de sucesso – entre empréstimos e venda entre profissionais e categoria de base, o clube trouxe 43 jogadores, incluindo Arouca, Washington, Renato Silva, Eduardo Costa e Junior César, que chegavam sob grande expectativa. Mas os resultados em campo foram decepcionantes. Muricy Ramalho deixaria o clube no meio do ano e daria início a um período de intensa troca no comando técnico. Além disso, a concorrência aumentou graças à reestruturação financeira do Corinthians e uma nova geração vitoriosa do Santos, além de um Fluminense turbinado pela Unimed e de um Internacional forte.

Em 2013, a fórmula de sucesso já não seria mais possível. O mercado dos sem-contrato tornou-se desinteressante, enquanto crescia a concorrência estrangeira por todo o Brasil. Montar bons times “de graça” tornou-se improvável e, como consequência, o sucesso esportivo de outrora não se repetiu. Financeiramente, o clube passou a depender exageradamente da venda de atletas para fechar no azul. Representada pela venda de Lucas ao PSG, Cotia rendeu ao São Paulo mais de R$ 180 milhões até 2013, mas o retorno dentro de campo foi praticamente inexistente.

A Análise Econômico-Financeira do Banco Itaú BBA, referente ao exercício 2014, já alertava: “O São Paulo está em rota de colisão com um muro”, demonstrando queda nas receitas, principalmente as comerciais, e com relevante aumento nos custos e na dívida total. Este era o cenário durante o fim do período presidido por Juvenal Juvêncio. Carlos Miguel Aidar o sucedeu e implantou o caos no clube.

Abusando da falta de transparência, fez uso de uma velha política – gastar alto no time esperando que os resultados de campo impulsionassem as finanças. Deu errado. Com uma folha salarial equivalente à de Cruzeiro e Fluminense (campeões brasileiros entre 2012 e 2014), o São Paulo fracassou. A saída conturbada de Aidar não mudou muito o cenário – o clube ainda permanece instável politicamente, necessitando vender jovens jogadores para cobrir custos elevados que não trazem resultados dentro de campo.

A pressão por títulos segue aumentando à medida em que o jejum fica maior e o clube parece não conseguir sair desse limbo. Pior, permanece gastando alto demais na formação de elencos desequilibrados. É consenso que os resultados em campo não se equivalem ao que o time gasta. Para ilustrar, utilizando dados do portal Transfermarkt, foram comparados os valores dos elencos do São Paulo, Palmeiras e Corinthians desde a temporada 2014, em milhões de Euros:

A julgar pelo preço de seus jogadores (índice que não necessariamente está relacionado com a qualidade dos atletas), o São Paulo deveria ter desempenho similar ao de seus rivais, algo que não aconteceu. Os motivos disso são intrínsecos ao futebol – o time custa mais caro do que consegue entregar em campo.

Se a fórmula do sucesso era clara no início do século, a receita do fracasso atual são paulino também é bastante evidente. Gasta-se muito, e mal. Cabe ao clube encerrar esse ciclo vicioso adotando estratégias eficientes na montagem de seu elenco. Um exemplo a ser seguido é o Grêmio.

Diferentemente do São Paulo, o tricolor gaúcho consegue entregar estabilidade em um projeto de médio/longo prazo que começa com a comissão técnica. Desde que Renato Gaúcho assumiu o Grêmio, em setembro de 2016, o São Paulo teve 11 treinadores, contando os interinos. Se a manutenção de Renato é exceção no futebol Brasileiro, o São Paulo deveria tornar isso regra. A demissão de Aguirre foi inacreditável e se o único nome capaz de trazer estabilidade for o de Rogério Ceni, que assim seja.

Do Grêmio, também vem o exemplo de uma folha salarial controlada, política adotada ao menos desde 2015. Segundo notícias da época, o clube gaúcho teve apenas a nona maior folha do país. Gradativamente este valor foi aumentando, mas, em 2018, o clube foi apenas o sétimo que mais gastou com salário, mesmo vencendo em seguida a Copa do Brasil e a Libertadores anteriores. Ao mesmo tempo, obteve sucesso dentro e fora de campo, com títulos conquistados, dívidas reduzidas e diversificação em suas fontes de receita. Mais importante, o clube obteve retorno técnico e financeiro com jovens jogadores, algo que o São Paulo nunca conseguiu fazer de forma eficiente.

Considerando que o São Paulo possui mais poder de investimento que o Grêmio, é inconcebível que um clube que gaste tão mais consiga ser tão menos eficiente. Resta ao tricolor paulista gastar melhor ou ao menos considerar controlar sua dívida. Mas, principalmente, é urgente parar de depender da venda de atletas para fechar suas contas.


Marco Sirangelo. Marco Sirangelo é Mestre em Gestão Esportiva pela Universidade de Loughborough (Inglaterra) e Bacharel em Administração de Empresas pela FGV, foi Analista de Marketing do Palmeiras entre 2009 e 2010 e Gerente de Projetos da ISG, de 2011 a 2016. Atualmente reside em Nova York. Twitter: @MarcoSirangelo

*A opinião do colunista não reflete a opinião do site

Original: Ludopédio

Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net

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