Leco, Juvenal Juvêncio e Aidar
Fotomontagem: Arquibancada Tricolor

Em uma noite que vimos um dos nossos rivais se classificar para a final da Libertadores, vale a reflexão sobre tudo aquilo que faz os torcedores do São Paulo terem a sensação de estarem parados no tempo.

Como diz uma das músicas que a torcida gosta de cantar: “Tenho Libertadores, não alugo estádio, sou Hexa Brasileiro, nunca fui rebaixado…”. Talvez, a música que mais exemplifica como nossas glórias e feitos, foram igualados ou superados.

Houve um tempo em que o São Paulo Futebol Clube era pioneiro e comandado por pessoas que pensavam à frente de seu tempo.

Um clube que era visto como modelo, exemplo de gestão e de ousadia. Quem imaginaria que um clube com menos de 20 anos de idade, iniciaria os estudos para construir o maior estádio particular do planeta?

Foi algo que, se ventilado hoje, até mesmo uma parcela da torcida (geralmente aqueles que se acham mais são-paulinos que outros) teria um ataque cardíaco.

Gestão Financeira e Contratações

Leonidas da Silva
Leônidas da Silva, contratado para mudar o patamar do clube

O São Paulo contou em sua história com gestores de alto nível. Pessoas que ocupavam não apenas grandes cargos e representatividade na sociedade paulistana, mas capazes de gerir finanças e tomar decisões pensando na grandeza do clube.

Quando ninguém imaginava possível ou até tiravam sarro, trouxemos o maior craque da época Leônidas da Silva (tido por muitos, como velho), um maestro argentino chamado Sastre e tempos depois, repetimos a ousadia ao trazer Zizinho (craque da Copa de 50 e ídolo de Pelé).

Após a construção do Morumbi, veio o gigante Gerson (nosso representante na lendária Copa de 70), o genial Pedro Rocha (um dos maiores jogadores de todos os tempos). E o que dizer de negociações visionárias que buscaram Careca e Pita? Até mesmo a engenharia financeira que trouxe o Rei de Roma, Falcão, merece lembrança e menção.

Títulos e Conquistas Pioneiras

Durante a Era Telê, disputávamos para ser o maior campeão paulista (SCCP 21 títulos, SEP 19 títulos e SPFC 18 títulos). O São Paulo sofria com a arbitragem e calendário apertado para dar conta das disputas e conquistas.

No Brasileirão, até há pouco tempo, conseguimos um inédito Tricampeonato seguido (ainda inigualado, exceto se o Flamengo ganhar o título em 2021). Éramos o “soberano”, com seis títulos e, por mais que você não conte os títulos da Taça Brasil e Robertão que a CBF deu a Santos e Palmeiras, ainda assim, Corinthians e Flamengo já tem 7 conquistas.

Disputamos nossa primeira final de Libertadores em 1974, quando ainda tínhamos um dos rivais em um longo jejum. Nos tornamos o clube brasileiro com maior número de finais (já igualado agora pelo Palmeiras) e o maior em número de títulos (já alcançado por Santos, Grêmio e em breve por Palmeiras ou Flamengo).

Em títulos do Mundial de Clubes, ainda estamos à frente, mas apenas porque a disparidade entre o futebol sul-americano e europeu se tornou gigante. É muito difícil que um clube da América do Sul ganhe outro mundial nos próximos anos. Muito pouco para nos apegar, não é?

Estádio e receitas

Sabe quando você tem alguma crítica à alguém da sua família, mas se outra pessoa falar, você acha ruim? É mais ou menos o que acontece quando se fala do Morumbi.

São Paulo pode ter o Morumbi como "trunfo" para o restante da temporada
Estádio do Morumbi – Foto: Staff Images / Conmebol

É um estádio sensacional, temos ótimas lembranças e histórias. Há quem seja totalmente contra e muito a favor de uma reforma profunda ou demolição para ter um novo estádio, pelo simples fato que, apesar de bem cuidado, é um estádio antigo e que daqui a poucos anos, estará muito mais defasado em comparação ao dos rivais.

Você pode não gostar de ler isso, mas pense nas receitas (que são vitais no futebol atual). Shows, ações corporativas, camarotes que atraem empresas, eventos internacionais, mais torcida em jogos.

Sim, não vamos pensar só no metrô (que ajuda muito), mas pense nos torcedores que vão pouco ou que querem algum conforto para seus familiares e não deveriam ser ignorados. Muita gente deixa de ir aos jogos pela falta de estrutura.

Tente pensar sem clubismo: O Morumbi em 15 ou 20 anos, deixará de ser atrativo para investimentos ou eventos, se ficar muito para trás em comparação aos outros estádios na capital.

Olha que eu nem vou entrar aqui para falar de marketing, pois há algum tempo, eu já havia feito um texto focado apenas nesse tema e você pode ler aqui.

Cargos e Inovação

Salão Nobre Morumbi - Foto: Marcos Ribolli
Salão Nobre Morumbi – Foto: Marcos Ribolli

Quantos e quantos cargos internos ainda são ocupados por “abnegados” ou conselheiros, que podem até ter boa intenção e serem são-paulinos, mas não necessariamente com capacidade para tais funções?

Até quando algumas posições serão preenchidas apenas por alianças políticas?

Outro ponto que vale destaque também, conecta-se quando falamos de inovações e tecnologias que poderiam ajudar o clube a aumentar suas receitas.

Soluções como o Fan Token, que o Corinthians já coloca em prática por aqui. Ações com NFTs, que o Atlético Mineiro já lançou e que com outras atividades, já começa a gerar novas receitas, pois foi o primeiro clube a criar um cargo de inovação.

Aliás, outros clubes já se movimentam nessa linha, como o Grêmio e Flamengo, investindo em pesquisas, parcerias e desenvolvendo ações ligadas à tecnologias.

Você consegue imaginar, sinceramente, que alguns “dinossauros” que temos no clube, conseguem pensar ou desenvolver algo assim?

Já ouvi de empresas de tecnologia, que “é muito complicado lidar com o São Paulo, pois tudo caminha lento lá dentro ou tem que passar pela mão de pessoas que não parecem muito interessadas no que oferecemos. O timing se perde”.

Eu mesmo, há alguns anos, quando trabalhava em uma grande empresa de tecnologia, cheguei a acompanhar uma apresentação de uma plataforma ao clube, que já era utilizada por Real Madrid e a equipe Lotus na F1, além de outros brasileiros, mas sem sucesso.

Na época, conversamos com um médico e com um filho de um conselheiro que cuidavam dos temas de Tecnologia da Informação no clube. Frustrante.

Paramos no tempo

Infelizmente, tudo isso, reflete nos não-resultados que aparecem no gramado.

O REFFIS, que já foi modelo para que atletas de clubes de ponta na Europa viessem se tratar por aqui, ficou ultrapassado e hoje é um dos responsáveis para que o time não consiga ter os jogadores ideais escalados nos jogos.

Tem muita coisa para ser feita e reconstruída e isso leva não apenas tempo, mas vontade de mudar e limpeza, muita limpeza.

Até lá, vamos ter que ver nossos recordes e marcas serem superadas por um longo período.


*As opiniões expressas aqui são de responsabilidade do autor do texto, e não refletem a opinião do site

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42 anos, paulistano, são-paulino e um dos criadores do Arquibancada Tricolor. Apaixonado por Formula 1, Futebol, boa música e tecnologia!