Raça Tricolor – Os primeiros grandes desafios de André Jardine

A coluna Raça Tricolor é publicada aos sábados e escrita pelo Gustavo Torquato, e conterá muita paixão sobre o Tricolor Paulista. Confira o índice da coluna aqui.

Não é novidade que o São Paulo aproveitou bem as oportunidades do mercado da bola, contratando até o momento 7 jogadores, dentre eles destaque para o aguardado retorno de Hernanes e a chegada de Pablo, um dos melhores atacantes da última temporada no futebol brasileiro. Mas existe uma dúvida que não sai da minha cabeça e talvez também seja uma das preocupações de vocês para a temporada de 2019. Como André Jardine irá administrar um elenco com tantos nomes de peso e com rodagem pelo futebol mundial e ao mesmo tempo abrirá espaços para as principais joias da base tricolor?

Essa é uma das principais incógnitas que pairam sobre esse atual São Paulo. Jardine não é unanimidade entre torcedores, muito menos entre a cúpula da diretoria são-paulina, menos pelo seu potencial, mais pela desconfiança que tomou conta da equipe nos últimos anos, devido ao insucesso dos antecessores no cargo de técnico de futebol e a exigência por um nome mais experiente.

Porém, além dessa descrença inicial em seu trabalho, Jardine terá outras tarefas um tanto quanto complicadas nos primeiros meses a frente do São Paulo. Apesar de gerar incerteza como técnico profissional do tricolor, o atual comandante do time é conhecido pelos inúmeros títulos conquistados nas categorias de base de cotia, incluindo uma inédita Libertadores da América sub-20 em 2016. Sim, mas o que isso significa para as pretensões do São Paulo em 2019?

Amigos, os últimos treinadores que passaram pelo Morumbi além de várias críticas pelo rendimento técnico da equipe, também foram questionados pelo mau aproveitamento dos jogadores da base. Nomes desconhecidos no cenário brasileiro ganharam espaço no time titular, impedindo que os jovens promissores que arrebentavam nas categorias de juniores do São Paulo tivessem maiores chances na equipe principal. Os poucos que tiveram oportunidades de jogar no profissional, foram lançados sem qualquer preparação e integração ao elenco, tendo que dar uma resposta rápida em momentos turbulentos da equipe.

A expectativa agora é que com Jardine, a base tenha maiores oportunidades e seja aproveitada como nunca havia sido feito. Isso porque os anos de total dedicação a preparação dos garotos de Cotia, fazem com que o treinador tenha a credencial de conhecer as principais promessas do time tricolor, permitindo que esses potenciais sejam desenvolvidos também no grupo principal. Entretanto, essa pretensão esbarra na quantidade de bons jogadores contratados pelo São Paulo para a temporada de 2019. Todas as posições, com exceção dos zagueiros, foram abastecidas de nomes que chegam forte para as brigas por espaço no time. Muitos consideram uma boa dor de cabeça ter a disposição um numeroso elenco com várias possibilidades de utilização. Todavia, ao lado de nomes como Pablo, Hernanes, e os remanescentes Diego Souza e Nenê, existem garotos oriundos da vitoriosa base são-paulina que já pedem passagem na equipe principal. Igor Gomes, Luan (bastante utilizado nas últimas rodadas do Brasileirão de 2018), Toró, Helinho, são nomes que certamente ganharão oportunidades no elenco tricolor para o novo ano. Ainda que nomes como Shaylon, Caíque e Pedro Bortoluzo não tenham vingado no time principal, acredito que dificilmente Jardine abrirá mão de testar alguns garotos que foram destaques sob seu comando nas categorias de base, até porque conhece como ninguém as características de cada um e a importância que podem ter para o elenco.

Em meio a esse possível interesse em trabalhar com os jovens jogadores, caberá a Jardine conduzir os ânimos das “estrelas são-paulinas”, acostumadas a serem protagonistas nos clubes pelos quais passaram e que podem ou até mesmo devem abrir espaço no time titular para a rodagem do grupo. Lembrando que esse foi um dos maiores problemas enfrentados por Diego Aguirre, em suas últimas partidas no comando do São Paulo em 2018. Em algum momento ele “perdeu a mão” com os jogadores, o que foi crucial para sua queda do cargo.






Dito isso, sem maiores pretensões, nem intenção de estabelecer uma fórmula mágica para o sucesso do São Paulo, listo agora alguns cuidados que André Jardine deverá ter em sua difícil missão de conduzir o bonde tricolor em 2019, com jogadores de personalidades e formas de atuar dentro e fora de campo tão distintas:

  • Espaço para os medalhões tricolores: Diego Souza e Nenê são jogadores premiados e vitoriosos por onde jogaram, mas também são pessoas de temperamento difícil e muitas vezes explosivo. Quem não lembra dos episódios contra o Colón e Cruzeiro, no qual ambos deixaram bem claro serem jogadores extremamente úteis, mas com dificuldade de controlar os próprios ânimos diante de situações que não os agradam. Para o desenvolvimento do elenco, será preciso que um dos dois ou até mesmo ambos sejam preteridos na escalação principal, abrindo espaço para testes no time e variação tática, o que exigirá do técnico um jogo de cintura e administração de grupo, impedindo uma divisão interna no time, o famoso “racha” de elenco, deixando bem clara a participação e importância de cada elemento dentro do São Paulo para o decorrer da temporada, de modo a evitar que o ambiente dentro da equipe seja contaminado;
  • Liderança de grupo: Jardine precisará definir em seus primeiros momentos de treinamento qual ou quais serão os líderes desta nova equipe dentro de campo. Jogadores que transmitam a identidade do comandante, marcada pela técnica apurada na troca de passes, apreço pela posse de bola e jogo ofensivo, características que o destacaram na base e o levaram ao time principal. Imagino que Hernanes, Pablo e Volpi possam conduzir esses aspectos com muita competência;
  • Rodagem de elenco, mas estruturação do time titular: Um dos piores erros de qualquer treinador que inicia um trabalho em time grande é estabelecer o rodízio de atletas sem definir uma base para o time titular. Trocam-se os 11 jogadores e parece que muda o nome do time também, tamanha a falta de sintonia que acontece dentro de campo. Isso já aconteceu com o São Paulo dos anos anteriores. A mescla de jogadores é extremamente necessária, tendo em vista a continuidade do trabalho do elenco e o número de competições durante a temporada, mas não é correto que existam diferenças tão gritantes entre o padrão tático de reservas e titulares, de modo a comprometer o rendimento do time nos jogos. Variação tática é uma coisa, falta de padrão de jogo é outra completamente diferente;
  • Resgate da alma vitoriosa: essa sem dúvidas a principal e mais instigante missão do treinador. Recuperar o espírito de grandeza do São Paulo, perdido nos últimos anos é uma tarefa que deve causar grande motivação e ao mesmo tempo responsabilidade na cabeça de Jardine. Ótimos jogadores ganham jogos, mas para ser campeão é preciso muito mais. Os times de 2014 e 2016 tinham jogadores que orgulhavam por suas técnicas e pela raça em campo, mas não foram capazes de formar um grupo campeão. A construção da mentalidade vencedora exige um processo de amadurecimento e consciência coletiva que envolve uma sintonia entre comissão técnica e jogadores. São ingredientes que não estão a venda no mercado, mas são conquistados como frutos do trabalho diário, entre jogos e treinamentos.

Na minha opinião, Jardine tem tudo para fazer um excelente trabalho no São Paulo. É jovem, mas ao mesmo tempo experiente dentro do clube. Conhece muito sobre futebol e principalmente tem ideias interessantes desde o trabalho de base, que fomentadas na medida certa no time principal e com paciência no desenvolvimento da equipe, devem resultar em uma grande jornada no nosso querido tricolor. E as expectativas de vocês sobre o trabalho de Jardine são positivas também? Quais suas maiores dúvidas com o atual elenco? E quais seriam suas dicas para o trabalho do treinador? Abraços e até breve!

Gustavo Torquato

Gustavo Torquato. Advogado, fanático por futebol e são-paulino desde sempre. Minha relação com futebol começou nos primeiros meses de vida, quando meu pai, radialista esportivo, me presenteou com a camisa do São Paulo Futebol Clube. Um objeto guardado com amor e saudosismo e que sobrevive há 26 anos, assim como meu amor pelo Tricolor.

*A opinião do colunista não reflete a opinião do site

Foto: Rummens

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