Rodrigo Caio e o São Paulo: a separação necessária de um bom jogador azarado

Por Matheus Conceição

Qualquer pessoa que entenda um pouco de futebol, sabe: Rodrigo Caio é um bom jogador. Nascido e criado nas categorias de base do São Paulo, o zagueiro chegou ao clube com doze anos, conquistou a titularidade, teve o reconhecimento de convocações, um ouro olímpico e uma quase-Copa em 2018. Além de tudo, é são-paulino doente. Ou, ao menos, costumava ser. Mas a sua carreira no São Paulo é marcada por situações inusitadas de azar que expõem a necessária cisão entre o jogador e o clube, para o bem de ambos.

Rodrigo Caio estreou em um clássico de uma forma nada agradável para a memória do torcedor tricolor: um acachapante 5×0 diante do Corinthians, em 2011, ainda como volante. O time estava invicto no campeonato e aquele resultado marcou bastante a cabeça dos sempre folclóricos torcedores, apegados a superstições, tabus e estatísticas engenhosas.






Apesar do início nada bom, o garoto de Cotia, com o seu bom futebol, conquistou seu espaço e a confiança dos treinadores, chegando à titularidade. Em 2012, por exemplo, sua defesa “escorpião” foi dada como responsável por parar o craque Neymar na vitória do São Paulo por 3×2 diante do Santos. Esse mesmo movimento do artrópode foi responsável, porém, pelo início de sua perseguição: com ele, fez um pênalti em seu futuro companheiro de clube, Kardec, na derrota para o Palmeiras no Paulistão de 2014. Também por ele, no mesmo ano, foi expulso contra o CRB, na Copa do Brasil, na derrota fora de casa em Maceió.

E a falta de sorte de Rodrigo Caio possui as mais variadas vertentes. Ainda em 2014, o jogador se lesiona, rompendo o ligamento do joelho e ficando sete meses parado. Isso afastou a sua transferência para o Mônaco, com proposta já concreta. Em 2015, o São Paulo oficializou a sua venda para o Valência por relevantes 14 milhões de euros. Contudo, após se despedir e viajar, algo nebuloso impediu o desfecho da negociata – no auge dos escândalos envolvendo o ex-presidente Aidar -, fazendo com que o jogador voltasse ao clube. Começava uma fase bastante contestada pela torcida, aliada à má fase do time. Mesmo assim, Rodrigo Caio cavou uma vaga na seleção e o tão sonhado ouro olímpico. Com ele, uma inevitável valorização e um flerte com a Copa do Mundo.

Como o infortúnio parece rondar a vida de Caio no São Paulo, uma atitude escorreita sob o campo da ética insuflou a fúria da torcida tricolor: o jogador chamou o juiz, na primeira semifinal do Paulistão contra o Corinthians, e assumiu que ele – e não Jô – havia trombado com o goleiro Renan Ribeiro. Tal atitude retirou o cartão que suspenderia o atacante do Corinthians, que, por malévola coincidência, fora o autor do gol da classificação adversária para a final.

Mesmo perseguido pela torcida, chamado de “zagueiro de condomínio” e com atuações não tão empolgantes, o jogador chamou a atenção pela atitude de “fair play” e conquistou uma vaga na Seleção Brasileira com o técnico Tite. Com isso, recebeu uma proposta de 18 milhões de euros da Real Sociedad, que ele prontamente recusou para ficar em evidência e ir à Copa de 2018. Mas o ocaso, mais uma vez, surgiu na vida do zagueiro, que se contundiu às vésperas da convocação e teve seu nome cortado da lista do Brasil.

Após sua recuperação, o jogador perdeu espaço para o voluntarioso e eficaz Bruno Alves, virando reserva do time e sendo preterido até mesmo quando seus companheiros estavam suspensos. Essa situação delicada, em um jogador relativamente jovem, com histórico de convocações e vitória olímpica, obviamente mexeu com seus brio e ego, fazendo com que a relação de amor com o clube do coração chegasse ao extremo limite da insustentabilidade.

Diante desse quadro histórico, é de se concluir que, para o bem tanto do clube quanto do jogador, haja um fim nessa relação. Os valores já não seriam os mesmos de antes, mas novos ares farão muito bem a Rodrigo Caio. O zagueiro nunca deixou de dar a cara à tapa e nem de dar o seu melhor em campo. Contudo, surgiu em uma geração de vacas magras do São Paulo, sendo tirado como bode expiatório de todas as situações, aliada a uma curiosa influência negativa do destino. O fim do casamento poderá representar, para o São Paulo, a extinção do vínculo com um rosto que marcou uma geração perdedora do clube; para o selecionável zagueiro, uma guinada na carreira com novas aspirações e motivações.

Apesar de tudo, Rodrigo Caio deve ser exaltado. Ainda que não tenha uma jornada vitoriosa no clube, sempre foi fiel às cores do tricolor e merece uma nova chance no futebol. Os fins de relacionamento representam, normalmente, infelicidade, mágoas e tristeza. Porém, nesse caso, o fechamento do ciclo, em uma separação consensual e oportuna, pode representar o fim da maré de azar na vida de Rodrigo Caio. E também do próprio São Paulo.

Alea jacta est.

*A opinião do colunista não reflete a opinião do site

Foto: Rummens

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