Todos estavam certos

A TRIbuna do Braga é escrita pelo Rodrigo Braga em todas às sextas.

O São Paulo viveu dias agitados desde a saída de Cuca e Vagner Mancini e a chegada, digamos, surpreendente, e respaldada pelo grupo, de Fernando Diniz. Muito se falou, muita gente tentou plantar crise (pra variar) no ambiente, tudo aquilo que infelizmente já nos habituamos nos últimos anos. De cabeça fria, e analisando todas as informações disponíveis, eu cheguei a conclusão que todos acertaram no episódio. Vejamos:

1) Cuca – acertou em pedir o boné e ir embora. Não conseguiu fazer o time render e já estava claro que não conseguiria.
2) Fernando Diniz – qual técnico na condição dele, ainda uma aposta e cercado de desconfiança se pode ou não realizar um trabalho em um grande time, recusaria um chamado desses, ainda que atabalhoado como foi? O técnico ganhou a oportunidade da vida de subir de patamar, e não tenho dúvida que vai se dedicar ao máximo pra isso.
3) Vagner Mancini – Garante que foi chamado para assumir, e depois a diretoria já não o garantia mais. Se ficou magoadinho, fez certo em ir embora. Mas que fique claro, ressalva feita ao bom trabalho que fez no Paulista, sempre disse que não queria assumir. Erá migué então? E com todo respeito, Vagner Mancini não é treinador para o São Paulo, sendo que representa mais do mesmo em termos de “modernidade” no trabalho em relação a outros treinadores brasileiros ultrapassados.
4) Diretoria (Raí) – acertou em atender ao pedido do elenco, por mais estranho que isso possa soar e que possa dar margem a falta de comando. A opção pelo Mancini era um paliativo até encontrar um outro treinador, provavelmente um estrangeiro para começar a trabalhar no próximo ano. Ou seja, convicção nunca houve. O São Paulo precisava sair do óbvio, que não estava dando certo, e ao enxergar a oportunidade, Raí não teve medo de corrigir o rumo e arriscar.
5) Jogadores – coloque-se no lugar de Daniel Alves na situação: o cara multi campeão nos grandes times europeus e com a Seleção, de repente aposta tudo no time do coração e o vê se arrastando, sem muita perspectiva de evolução. Antes de são-paulino, Daniel é viciado em vitórias, viu o risco de afundar na sua aposta (as cobranças tácitas ao Cuca já tinham sinalizado isso) e ao perceber que a diretoria iria insistir no erro, interviu com o apoio de outras lideranças do elenco, pedindo ao menos que viesse alguém que pudesse tirar o time da mesmice, com ideias mais modernas e que aproximassem o São Paulo do futebol praticado na Europa. Cornetas logo se apressaram em dizer que Daniel manda no clube. Eu faria exatamente o mesmo que ele fez, se me fosse dada a chance de corrigir um erro evidente. Mas concordo com quem diz que a interferência dos jogadores por Diniz aumenta a responsabilidade do grupo para que o trabalho dê certo e o São Paulo jogue o futebol que se espera dele pelo elenco que tem e os investimentos que fez.

O tempo conserta

O anúncio de Fernando Diniz na calada da noite e horas depois da saída de Cuca causou estranheza em praticamente todo mundo. Minha primeira reação, confesso, foi de incredulidade e de jogar a toalha. Mas com o passar do tempo, fomos conhecendo os bastidores da chegada do treinador de ideias ousadas, veio a coragem de meter a cara já no dia seguinte para encarar um jogo dificílimo contra o Flamengo no Maracanã (9 em 10 técnicos teriam deixado pra começar depois dessa pedreira), e uma atuação corajosa diante do líder e até então 100% em casa. Agora, com uma semana de treinos intensos, pelo que nos foi relatado, dá para esperar um time diferente a partir do jogo com o Fortaleza nesta sábado no Pacaembu. Uma semana depois do ocorrido, hoje eu já posso dizer que gosto da escolha que foi feita.






Foi tarde

A saída de Cuca não deixará nenhuma saudade no torcedor são-paulino nesta segunda passagem do treinador pelo clube. O trabalho foi pífio, os resultados muito abaixo da qualidade do elenco e refletiram o retrospecto do treinador nos seus últimos trabalhos. Cuca sempre será lembrado pelos tricolores pela essencial passagem de 2004, que moldou o time supercampeão que viria nos anos seguintes. Mas essa de 2019 é melhor ser esquecida.

Ao Mito, tudo

Rogério Ceni voltou ao Fortaleza (que bom que teve a oportunidade de consertar a bobagem que tinha feito) e vai enfrentar o São Paulo neste sábado, num mais do que aguardado reencontro. Não será no Morumbi, mas a torcida promete todas as homenagens ao Mito, e elas são todas merecidas. Rogério com toda certeza voltará ao Tricolor para brilhar no futuro, como fazem hoje em dia Renato no Grêmio (vale lembrar que só na terceira vez ele deu certo no clube) e Marcelo Gallardo no River Plate, mas ainda é cedo, e ele precisa seguir construindo uma carreira sólida.
Sobre o jogo de sábado no Pacaembu, só espero que o carinho com o ídolo são paulino fique apenas nas arquibancadas mesmo, e em gestos dos jogadores e direção, porque dentro de campo o São Paulo não pode mais ser tão hospitaleiro com os adversários, precisa desesperadamente desses três pontos depois de tantos desperdiçados como mandante. Depois disso, estaremos todos na torcida pelo sucesso de Ceni no simpático Fortaleza.


Rodrigo Braga. Tenho 40 anos, sou um paulista, paulistano e são-paulino radicado em Santa Catarina, onde há mais de 20 anos atuo como jornalista. Fui editor de esporte e participei de coberturas de Copa do Mundo, Jogos Pan-Americanos e outros eventos internacionais. Sou louco por futebol, mas, principalmente, sou louco pelo São Paulo Futebol Clube.

*A opinião do colunista não reflete a opinião do site

Foto: Rummens

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