A nota oficial do São Paulo é uma afronta ao jornalismo esportivo independente | OPINIÃO

O exercício do jornalismo é primordial em qualquer nação que se diga livre. É, pois, indiscutivelmente um serviço público, cuja atividade possui destaque específico na Constituição Federal – à luz do capítulo “Da Comunicação Social”. A formação de opiniões é muitas vezes intermediada pelos profissionais da imprensa, que traduzem — com viés formal ou não – os aspectos do cotidiano, naquilo que seria um longa manus da visão do cidadão; é uma espécie de versão, uma alternativa de interpretação da realidade, de modo independente no que diz respeito ao manejo dos fatos.

Por ser o Brasil considerado por muitos como o país do futebol, a vertente esportiva do jornalismo detém contornos de verdadeira cultura no dia a dia dos nacionais. Nesse aspecto, o esporte deixa de ser mera diversão, ao alcançar posição privilegiada de costume necessário, já enraizado no âmbito popular como meio de entretenimento, de saúde e de lazer. E a ascensão desse segmento fez do jornalismo esportivo um local especializado, com vocábulos e expressões próprias, atrelado a uma intrínseca pauta de responsabilidade. O brasileiro nutre verdadeiro amor e ódio pelos atores da comunicação futebolística, e isso demanda certos requintes de precaução, pois.

E é justamente por envolver paixões que se deve ter o devido cuidado quando se trata de aspectos do futebol. O tom leve de muitos dos programas esportivos se contrapõe às situações lamentáveis de consequências irracionais motivadas pela insensatez, tais quais as violências nos estádios ou as ofensas direcionadas. Nesse diapasão, o profissional midiático do esporte lida, diuturnamente, com uma mescla de elogios e ameaças, o que o faz adquirir um necessário amadurecimento para saber contornar circunstâncias desagradáveis – que já fazem parte de seu desiderato laboral.

Assim, é de se esperar que torcedores, pelos mais diversos motivos, tenham um comportamento reprovável em situações extremas. Suas insatisfações pessoais e frustrações podem ser somadas aos meandros de insucessos de seu time, o que potencializa atos de irresponsabilidade – quiçá, criminosos. Contudo, surpreende que uma instituição profissional, organizada e histórica tal qual o São Paulo Futebol Clube, que tem o compromisso indissociável de satisfazer os anseios da terceira maior torcida do Brasil, utilize seus meios oficiais de comunicação para promover um linchamento público de um profissional da área esportiva – independentemente de suas motivações.

A imprensa livre, como uma instituição ideal, deve repudiar veementemente tal ato de irresponsabilidade – como, aliás, de fato o fez, por intermédio de diversas vozes, de sumidades a anônimos, nas redes sociais. Por trás do velcro do combate à desinformação, restou nítido o teor de perseguição ao penhor do centro gravitacional dos direitos fundamentais do profissional Gabriel Sá, qual seja, a sua dignidade como trabalhador, que cobre o clube por um veículo independente, e como ser humano, que enfrenta suas batalhas cotidianas com extrema seriedade.

É de se lamentar que a condução da comunicação de um clube da estirpe do São Paulo permita um desleixe atentatório de tal monta, que atinge não apenas Gabriel, mas, sim, a toda a vertente do jornalismo esportivo brasileiro. Nesse sentido, clama-se não apenas pelo respeito, como também por uma retratação digna, proporcional ao agravo, mormente pela reação tempestiva de grande parte da comunidade esportiva, que apoiou o profissional destratado e destacou a precipitação da ação direcionada – e demonstra o equívoco perpassado.

Jornalismo combativo, esportivo ou não, é um dos pilares da democracia. E disso a cobertura do Arquibancada Tricolor jamais abrirá mão.

Veja abaixo a fatídica nota. Ou clique aqui.

*As opiniões expressas aqui são de responsabilidade do autor do texto, e não refletem a opinião do site

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