“Projeto Tóquio” – Nos tempos em que o São Paulo era um clube-modelo

Hoje vamos resgatar aqui uma matéria da Revista Placar, de março de 1987, que contava os planos do então “Clube-Modelo” do futebol brasileiro, para chegar à final do Mundial de Clubes, no chamado “Projeto Tóquio“.

Uma ideia ousada, nos tempos em que não se dava tanta importância à Copa Libertadores da América ou globalização de marca, mas naqueles tempos, o São Paulo era um clube visionário e que pensava à frente dos demais.

A ideia é fazer com que muitos relembrem ou conheçam como o São Paulo já era respeitado e conhecido no mundo todo, antes mesmo da Era Telê e como um projeto como este, precisou de alguns anos para se concretizar.

Não queremos exaltar ninguém em específico, até porque um dos citados, posteriormente se envolveu em escândalos de corrupção no clube, mas é importante conhecer o passado para construir um futuro melhor.

Confira a matéria assinada pelo jornalista Ari Borges para a Revista Placar.

Sol Nascente Na Cabeça

Já na Libertadores, o Tricolor entra na segunda fase do Projeto Tóquio e agora quer conquistar o mundo

Ao empatar com o América, no Rio de Janeiro, dia 18 de fevereiro, o São Paulo não apenas garantia sua presença na final da Copa Brasil (nome dado ao Brasileirão daquele ano) 1986. Ali, no gramado do Maracanã, era cumprida também a primeira etapa de um plano nascido em novembro de 1984, da cabeça do à época técnico Tricolor Cilinho.

Na ocasião, juntamente com uma profunda reformulação do elenco – saíram Éverton, Waldir Peres, Renato, Zé Sérgio, Getúlio, Almir e Heriberto, entre outros -, o treinador lançava a ideia de uma certa “revolução permanente”.

Careca | Arquibancada Tricolor
Careca, o maior jogador do país em 1986/1987 – Foto: Sergio Sade

Chegar a Tóquio significa 6 milhões de cruzados em caixa

Segundo esse plano, o time não deveria mais se abalar com a perda eventual de algum craque. “Ao contrário, isso seria um estímulo”, lembra o presidente Carlos Miguel Aidar.

O clube vinha de dois vice-campeonatos consecutivos, em 1982 e 1983, obtidos com praticamente o mesmo time que levantara o bicampeonato nos anos anteriores. “Ali percebemos que bons jogadores ganham jogos, mas só homens ganham títulos”, completa filosófico o dirigente. “Era preciso também ter mentalidade de vencedor, ambicionar ser campeão de tudo o que se disputasse.”

É nesse ponto, atrelado à tal revolução permanente, que surge o Projeto Tóquio, nome pomposo que significa a disputa da Copa Intercontinental de Clubes. Desde 1980, o ex-Mundial Interclubes passou a ser realizado na capital do Japão, rebatizado como Copa Toyota, a patrocinadora do evento que paga 300.00 dólares (cerca de 5,8 milhões de cruzados) aos participantes: os campeões europeu e sul-americano. Duas equipes brasileiras já chegaram lá com sucesso. Flamengo, em 1981 e o Grêmio, dois anos depois.

Aplaudindo de Pé

O sonho de o São Paulo ingressar nessa restrita confraria passou a ser aplicado em 1985, já com o time totalmente modificado. Sob o rígido comando de Cilinho, os ainda anônimos Muller, Silas e Sidnei começavam a fazer furor ao lado de Oscar, Dario Pereyra, Pita e Careca.

O plano de vencer o Campeonato Brasileiro – ou pelo menos ser finalista, ganhando o direito de participar da Taça Libertadores – foi interrompido numa quarta-feira à noite, no Morumbi, quando um empate de 2×2 com o Grêmio tirou o time da competição.

Mas, mesmo com o São Paulo desclassificado (ficou em 14º lugar na Taça de Ouro), a torcida não deixou o estádio e aplaudiu de pé o time. “Ficou a impressão de que, se tivéssemos passado pelo Grêmio, ganharíamos o título”, argumenta o presidente.

Aidar | Arquibancada Tricolor
Caros Miguel Aidar, presidente do São Paulo – Foto: Nelson Coelho

De qualquer modo, a irrepreensível campanha no Campeonato Paulista – disputado no segundo semestre – ajudou a esquecer a frustração. O São Paulo campeão, afinal, foi melhor em tudo: ataque, defesa, renda, público e, de quebra, teve o artilheiro e o vice: Careca e Muller.

A recompensa foi a convocação de sete jogadores para a Seleção Brasileira e outro para a uruguaia, o que acabou prejudicando a pretensão do bicampeonato paulista. Viria também a saída de Cilinho, perfeitamente superada com a chegada de Pepe. Tudo dentro da teoria da revolução permanente.

“Mesmo assim, 1986 foi um bom ano”, discursa o assessor da presidência, Celso Grelet, ligado ao departamento de marketing do clube: “O que ganhamos em termos de projeção internacional compensou tudo”.

De fato, os convites para excursões e amistosos passaram a se multiplicar. “Isso também faz parte do Projeto Tóquio”, explica Carlos Miguel Aidar. “Com o título mundial, o interesse certamente aumentará, assim como nossas cotas.”

Depois do arquivamento forçado, o projeto retornou com toda força no dia 30 de agosto, quando o São Paulo estreou na Copa Brasil, vencendo o Coritiba por 1×0. “Naquele dia, na preleção, dissemos aos jogadores que a final seria no Japão”, recorda o gerente de futebol José Eduardo Chimello. “Em toda partida, com exceção das finais contra o Guarani, a gente dava um jeito de falar na Copa Toyota”, garante o médico Marco Aurélio Cunha.

Mais reforços

Neto | Arquibancada Tricolor
Neto, reforço por empréstimo – Foto: Nelson Coelho

Mesmo antes de superar a primeira etapa, que era chegar na Libertadores, o Tricolor cuidou de se arrumar para superar a segunda, que é vencer o torneio sul-americano. Assim, tratou de trazer os meias Neto – emprestado pelo Guarani – e – contratado junto à Internacional de Limeira (SP).

Como este ano o calendário da Seleção Brasileira inclui o Pré-Olímpico, Pan-Americano, Copa América e excursão à Europa, o São Paulo sabe que os desfalques por convocações serão constantes na temporada. “Por isso ainda procuramos mais dois reforços”, anuncia o técnico Pepe.

Para vencer a Libertadores e chegar a Tóquio, contudo, toda a organização e estrutura do São Paulo é ameaçada pela possível saída de Careca. A revolução permanente não parece lógica nesse caso.

É por isso que o presidente Aidar anuncia, com misteriosa satisfação, que o Projeto Tóquio vai muito bem, obrigado: “Está quase tudo acertado. O homem fica”.

Careca: Fama e Negócios no Japão

O centroavante Careca não chega a ser tão popular no Japão quando o cantor Itsuki Hiroshi, espécie de Roberto Carlos local. Isto não significa que ele seja um ilustre desconhecido por lá.

Por causa das transmissões de jogos brasileiros pela televisão – seja em macro ou microtelas -, o São Paulo e seu camisa 9 estão longe de passarem batidos diante de milhares de olhinhos puxados. É o que relata, de Tóquio, o jornalista Yoshiyuki Osumi.

“Nós conhecemos o São Paulo muito bem. Uma manhã destas (na semana passada), um jornal japonês que é impresso em inglês dava destaque, em duas páginas de esporte, para a decisão da Copa Brasil, entre São Paulo e Guarani. O Tricolor não é somente popular por ser um dos maiores clubes do mundo, mas pelo fato de ser proprietário de um estádio gigante: o Morumbi.

“Jogadores como Careca, Muller, Silas, Oscar, Sidnei e Dario Pereyra tem popularidade aqui no Japão. Além da última Copa do Mundo, a TV transmitiu dois ou três jogos do São Paulo pelo último Campeonato Paulista.

“Sem dúvida, o mais lembrado entre os jogadores são-paulinos, é Careca. Nós o consideramos, aqui no Oriente, um dos melhores atacantes do mundo. Ele visitou o Japão em dezembro passado cumprindo seu contrato de garoto-propaganda da maior fábrica de material esportivo daqui, a Mizuno.

“Muitos clubes brasileiros tem nos visitado nos últimos anos, mas os mais famosos ainda são o Santos, por causa de Pelé, e o Flamengo, devido a Zico. Temos, porém, especial interesse pelo São Paulo porque um garoto japonês, Musashi, treinou lá durante quase dez anos. Além disso, nossa Federação planeja convidar São Paulo ou Fluminense para disputar a Copa Kirin, em maio.

De qualquer jeito, a festa Tricolor estará assegurada.”

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