Opinião: Atraso de pagamentos não pode ser normalizado

Sempre aprendemos que nossas obrigações, vem antes de qualquer coisa que façamos na vida. E quando estamos em uma situação financeira complicada, isso vem com mais força ainda. Por isso, o atraso de pagamentos é algo que não pode ser normalizado.

Poucos estão alheios a passar por dificuldades financeiras, ainda mais em oscilações econômicas que enfrentamos, porém, quando você está devendo, pega muito mal mentir ou agir de forma diferente da qual você está passando, não é mesmo?

Todo mundo conhece alguém ou até já viveu uma situação em que passou raiva por que uma pessoa estava te devendo dinheiro, alegava não ter como te pagar, mas estava viajando, saindo para comer fora ou comprando coisas caras.

Agora comece a imaginar uma situação dessas relacionando ao futebol.

Sabemos que o São Paulo não vive uma boa condição financeira devido a várias gestões temerárias e irresponsáveis há anos e potencializada pela falta de responsabilização a quem nos enfiou nessas condições.

Isso faz com o que o clube tenha que se desdobrar para fechar a conta no final do mês, um cenário perfeitamente compreensível, porém, não foi apenas uma vez, que tornou-se público o atraso de pagamentos em direitos de imagens do elenco.

Atraso de pagamentos não é imoral, o errado é não cumprir acordos

Atraso de pagamentos mesmo após premiação da Copa do Brasil - Foto Icon Sport
Atraso de pagamentos mesmo após premiação da Copa do Brasil – Foto Icon Sport

Após o título da Copa do Brasil, com uma premiação milionária, altas receitas de bilheterias (inclusive com alguns torcedores achando justo o aumento no valor dos ingressos), entrada de patrocínios mais vantajosos e novos acordos comerciais, esperava-se, como foi prometido pela diretoria de futebol, que as dívidas seriam quitadas.

Em entrevista recente ao programa Bola da Vez, da ESPN, o diretor de futebol Carlos Belmonte, afirmou que não há hoje, qualquer atraso ou pendência nos pagamentos ao elenco.

Em outros momentos passados, Belmonte já havia assumido o atraso nos direitos de imagem e que a solução era o pedido de mais um empréstimo bancário, como ocorreu em maio de 2022.

À época, pouco depois da decisão da Copa Sul-Americana de 2022, o elenco continuava na expectativa para receber os valores atrasados durante o ano, conforme publicou a Isto É. Naquele momento, as dívidas totais do clube, estavam estimadas em R$700 milhões.

Em março de 2023, já havia um atraso de três meses nos direitos de imagem do elenco e, segundo apuração do Lance, mais QUATRO empréstimos foram aprovados pelo Conselho Deliberativo para quitar os atrasos.

No mês seguinte, em entrevista à Rádio Transamérica, o diretor de futebol alegou que a situação era “absolutamente tranquila” e que o elenco nem sequer cobrava a diretoria.

Insatisfações e geração desnecessária de rumores

É claro que para alguns torcedores, tocar nesse ponto é “plantar crise”. Para estes, o fato de não se falar nas dívidas de outros clubes e questionar apenas as pendências do São Paulo, é “agir contra o clube” ou “criar picuinhas”.

Porém, é justamente pela preocupação com a gestão financeira do clube, que não podemos romantizar ou normalizar o atraso de pagamentos ou não cumprimento de acordos.

Esse tipo de situação abre precedente para a geração de rumores, muitas vezes, exageradas.

Você deve lembrar que em dezembro de 2023, o jornalista Gabriel Sá fez um post para desmentir que Calleri deixaria o clube por insatisfação com o atraso de pagamentos nos direitos de imagem, rumor que foi espalhado nas redes sociais à época. Havia sim o atraso, mas não a possibilidade de saída.

“O São Paulo deve para o centroavante 2 meses de direito de imagem, assim como para boa parte do elenco. Claro que isso incomoda ele. Incomoda a todos. Mas internamente não se fala em caos. Questionei uma pessoa importante do São Paulo sobre a permanência de Calleri e a resposta foi direta: ‘Ele não sai’. Tem apenas sondagens por enquanto, ainda não se tornaram propostas”, postou Gabriel.

O próprio Calleri respondeu a postagem, embora de maneira confusa, dando a entender a alguns, que teria desmentido a informação do atraso dos pagamentos. Fato que posteriormente foi apurado e confirmado pelo ge.globo, inclusive complementando que a pendência era MAIOR que o período de 2 meses.

A “romantização” do não pagamento de dívidas

Todo esse contexto, com atrasos de pagamentos e acordos, que, pelas apurações dos canais citados acima, não foram totalmente cumpridos, gera desconfiança para nós torcedores, mas principalmente no elenco, que poderia se sentir desrespeitado.

Por mais que o elenco não faça cobranças, como afirmou Carlos Belmonte, entendemos que não é nada animador ver as notícias recentes em que o clube consegue fechar novos acordos e receitas, mas não consegue normalizar uma obrigação que é o pagamento em dia.

Nesta mesma entrevista à ESPN, Belmonte comenta sobre não haver pendências hoje, mas que é algo que fatalmente acontecerá novamente, contando inclusive com a complacência de um dos jornalistas que o entrevista, entendendo que trata-se simplesmente de um problema de fluxo de caixa, veja:

Com todo o cenário que relembramos neste texto, a repetição dos atrasos de pagamentos se mostram constantes e não apenas um problema de fluxo de caixa, visto que o próprio diretor de futebol já afirmou em outro momento, a necessidade do clube pedir novos empréstimos bancários.

E o grande problema e nossa grande preocupação com novos empréstimos contraídos, são os juros e condições para pagamento. Ainda mais pelo fato de haver um acúmulo dessas solicitações a bancos ao longo das últimas 3 temporadas, na gestão Casares.

Segundo levantamento do historiador Alexandre Giesbrecht, da página ‘Anotações Tricolores‘, houve uma soma superior a R$90 milhões em empréstimos até agosto de 2023, informação apurada também pelo Lance. Em informação complementar do perfil Agonia Tricolor, houve o acréscimo de R$46 milhões em mais 5 operações somente em dezembro.

Sendo assim, o total de empréstimos solicitados teria sido de cerca de R$196 milhões em 18 empréstimos, somente em 2023.

Santos e Cruzeiro são exemplos para termos consciência

Torcedor do Cruzeiro lamenta rebaixamento - Foto: Felipe Correia-Estadão
Torcedor do Cruzeiro lamenta rebaixamento – Foto: Felipe Correia-Estadão

Por mais que possa soar alarmante e muitos entendam que não há motivo para preocupações ou que trata-se de um cenário de dívidas administráveis, eu sempre tento lembrar aqui os motivos que fizeram o Cruzeiro, que havia sido Bicampeão da Copa do Brasil (2017 e 2018) e Bicampeão Brasileiro (2013 e 2014) e que havia recebido milionárias premiações, se endividar a ponto de falir e ser rebaixado.

Outra lembrança importante: o papel do jornalismo de verdade não é agradar “A” ou “B”, mas sim apurar e informar.

*As opiniões expressas aqui são de responsabilidade do autor do texto, e não refletem a opinião do site

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Alexandre
1 mês atrás

O que esse boca de farofa está fazendo no SPFC até hoje, eu não sei.

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