“Desesperancei”

A TRIbuna do Braga é escrita pelo Rodrigo Braga em todas às sextas.

Sim, inventei este termo do título para não dizer algo do tipo: Fora, Cuca!

Porque quero tentar de verdade ser racional nesta opinião, meu lado torcedor me fez mal dormir de quarta para quinta de tanta raiva do papelão, mais um, do time contra o Goiás. Mas nem tudo está errado nesta eterna reconstrução do São Paulo (que parece até obra pública, sempre atrasa mais um pouco). Porém, temos que falar do que continua muito errado.

O São Paulo não rende o que deveria pelo elenco que tem. A campanha em casa é um desastre, e todo jogo no Morumbi tem exatamente o mesmo enredo: o adversário todo atrás da bola fazendo o tempo passar e o Tricolor não sabe sair dessa armadilha, mesmo já ciente do que lhe aguarda em campo. De quem é a culpa disso? Do técnico, claro. Não falta qualidade no elenco, não falta tempo para treinar. O que falta, e vamos ser sinceros aqui, é qualidade no trabalho da comissão técnica.

E não é de hoje. Puxe pela memória: há quanto tempo Cuca não faz um bom trabalho? Eu respondo, desde o título de 2016 com o Palmeiras. De lá pra cá, todos foram fracos, inclusive o atual. Cuca parou no tempo, o que não é exclusividade dele entre os técnicos considerados “top de linha” no Brasil.






Tenho falado em conversas de amigos que os técnicos brasileiros estão tendo um triste choque de realidade do quanto são atrasados e do quanto contribuíram, com a sua pobreza tática e monotonia de conceitos, para a estagnação do nosso futebol praticado aqui. Sim, vamos ser honestos, os técnicos estrangeiros são melhores, chega de mimimi e de reserva de mercado. Ou você aí que me lê agora acha que se o Flamengo tivesse insistido em Abel Braga (outro símbolo do atraso), estaria jogando este futebol tão elogiado, com todas as peças rendendo o máximo? Eu tenho certeza que não! Porque os técnicos brasileiros, mesmo os considerados melhores, não sabem trabalhar com elencos de qualidade, se acostumaram a tirar leite de pedra, trabalhar com a mediocridade e disso fazer o feijão com arroz pra preservar seus empregos. São medíocres. Abel é medíocre, Felipão é medíocre, Carille é medíocre, até Tite é medíocre. Cuca, obviamente, e infelizmente, não é a exceção da regra.


Meu lado torcedor exige a cabeça de Cuca numa bandeja pra ontem. Mas, insisto, quero ser racional. Trocar técnico agora talvez só piore as coisas. Mas algumas atitudes precisam ser tomadas: cobrança dura à comissão técnica, o trabalho é ridículo, não condiz com o elenco que tem à disposição (mesmo considerando as dezenas de lesões, outro problema). Cuca precisa rever ideias e conceitos e fazer esse time render. Me dói na alma ver Daniel Alves perdido em campo, tentando achar uma função e pensando muito à frente do resto. Me dói ver Pablo trombando lá na frente sem uma função clara. Me dói ver o São Paulo cruzar 30, 40 bolas num jogo e não acertar nenhuma. Me dói ver tantos chutes descalibrados, me faz ter vontade de chorar ver que os esforçados Reinaldo e Luan são os melhores do time em campo quase todo jogo. Enfim, tem muita coisa errada. Vontade não tem faltado, isso é verdade. E falta de tempo para treinar não é. Falta organização.

Consertado isso, ao menos minimamente, será hora de, mais uma vez, pensar no próximo ano, porque esse infelizmente já foi pro brejo. Tivesse uma campanha em casa digna do seu tamanho, como têm por exemplo Flamengo e Inter, o São Paulo estaria brigando pelo título. Mas como tem campanha vexatória, tendo somado 18 de 33 pontos como mandante, até a vaga no G-4 está ameaçadíssima, caso não passe a se impor de uma vez por todas no Morumbi.

Seguir com Cuca no comando até o final pra buscar ou não a vaga direta na Libertadores é uma opção, mas manter esse trabalho na próxima temporada é inadmissível. O clube em sua eterna reconstrução (que repito, não está de todo errada, tem muita coisa que vai bem), montou um elenco que nitidamente está acima da capacidade de gestão do Cuca e dos técnicos brasileiros em geral. Ou seja, se quiser insistir até o final do Brasileirão, ok, o risco é enorme de ficar sem nada, mas entendo quem defende que trocar no meio do campeonato é ruim.

Mas para 2020 a direção já pode começar a conversar com outro treinador. Até pode ser brasileiro, desde que com ideias que sejam condizentes com o futebol de hoje em dia (Tiago Nunes?), mas ainda acho que esse e outros que se encaixam não têm casca pra aguentar a pressão de um clube gigantesco na fila. Eu traria um estrangeiro para começar um trabalho desde o início, como deve ser. Aliás, eu até tenho uma sugestão para dar, e ela é bem conhecida: Juan Carlos Osório. O Profe, com certeza, faria esse time atual voar.

Enquanto isso não acontece, nos resta passar raiva com um time que podia muito mais e rezar pra que algo dê certo. A esperança de que o São Paulo finalmente tinha voltado aos trilhos, essa infelizmente já foi pras cucuias…


Rodrigo Braga. Tenho 40 anos, sou um paulista, paulistano e são-paulino radicado em Santa Catarina, onde há mais de 20 anos atuo como jornalista. Fui editor de esporte e participei de coberturas de Copa do Mundo, Jogos Pan-Americanos e outros eventos internacionais. Sou louco por futebol, mas, principalmente, sou louco pelo São Paulo Futebol Clube.

*A opinião do colunista não reflete a opinião do site

Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net

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